Depois do caso Warner, qual é o próximo movimento da Netflix?

A Netflix encerrou — pelo menos por agora — o seu capítulo mais ambicioso de M&A. Após meses de disputa pela Warner Bros. Discovery, a plataforma decidiu não igualar a proposta da Paramount Skydance e deixou caminho livre para um acordo avaliado em cerca de 110 mil milhões de dólares, no qual a Paramount assume também o pagamento de 2,8 mil milhões de dólares associados à quebra do acordo anterior com a Netflix. A retirada foi interpretada como um sinal de disciplina financeira.

Ao mesmo tempo, reforça uma realidade desconfortável para o resto do mercado: mesmo sem a Warner, a Netflix chega a 2026 com uma posição financeira difícil de igualar. Em 2025 reportou 45,2 mil milhões de dólares em receitas, uma margem operacional de 29,5%, mais de 325 milhões de subscrições na plataforma e um negócio publicitário que ultrapassou 1,5 mil milhões de dólares. Neste contexto, a pergunta já não é se a Netflix “precisa” de comprar algo, mas o que deveria comprar caso decida fazê-lo.

A tese de “não comprar nada” ganha força

Entre analistas, existe uma corrente clara que considera que a decisão mais sensata pode ser não fazer nenhuma aquisição. Erica Gruene, da Oaklins DeSilva+Phillips, alerta que a história das grandes transações nos media “é um aviso”, já que muitas acabam por destruir mais valor do que criam.

Essa prudência também está alinhada com o discurso recente da empresa. Na conferência da Morgan Stanley de 4 de março de 2026, o CFO Spencer Neumann reforçou que as prioridades passam por melhorar o produto audiovisual (séries e cinema) e expandir o negócio publicitário. As previsões apontam para crescimento de receitas entre 12% e 14%, uma quase duplicação da publicidade até cerca de 3 mil milhões de dólares em 2026 e 11 mil milhões de dólares em fluxo de caixa livre.

O mercado acredita que a Netflix deve comprar “capacidade”, não apenas catálogo

Segundo análises publicadas pela Adweek, as possíveis aquisições fariam mais sentido se reforçassem infraestruturas estratégicas — como direto, desporto, gaming ou publicidade — em vez de simplesmente acrescentar bibliotecas de conteúdo.

  • Desporto: DAZN ou plataformas com direitos relevantes. Chris Cochrane, da Plug Media, considera que a Netflix ainda não tem uma estratégia sólida para desporto e que adquirir uma plataforma como DAZN permitiria obter direitos, relações com ligas e audiência imediatamente. Alan Wolk, da TVREV, vai ainda mais longe e sugere que um pacote como a NBCUniversal daria acesso direto a grandes direitos (como NFL, Jogos Olímpicos ou Premier League). A lógica baseia-se no facto de a Netflix já apostar em conteúdo ao vivo, com acordos como o da WWE, transmitido na plataforma desde 2025.

  • Gaming: parar de construir e começar a comprar. Vários especialistas defendem que o gaming funciona como produto de comunidade, com publicidade, compras in-app e camadas sociais. Nesse contexto, surgem nomes como Electronic Arts, Ubisoft, Take-Two Interactive ou Roblox como formas de adquirir IP e pipeline de desenvolvimento de forma imediata.

  • Lionsgate: uma compra mais realista a curto prazo. Alguns analistas consideram a Lionsgate um alvo mais plausível em termos de preço e franquias. Evan Shapiro resumiu essa lógica com uma frase provocadora: “Só John Wick já podia justificar a compra.” A franquia John Wick é vista como um ativo forte para reforçar catálogo e IP.

  • Spotify: convergência entre áudio e vídeo. Outra hipótese recorrente é a Spotify. A ideia seria criar uma oferta integrada de vídeo, áudio, podcasts e eventos ao vivo, ampliando ao mesmo tempo a proposta publicitária. O encaixe estratégico ganhou força depois do acordo entre Spotify e Netflix para levar video podcasts para a plataforma em 2026 nos EUA, embora a operação enfrente desafios de avaliação financeira e regulação.

  • Roku: distribuição e AdTech em vez de conteúdo. Erica Gruene também sugere a Roku como uma aquisição orientada ao negócio. A empresa combina distribuição massiva em CTV e infraestrutura publicitária, o que poderia acelerar receitas. A lógica é simples: a Netflix já domina a criação de conteúdo; controlar melhor distribuição e monetização publicitária poderia ter impacto direto no crescimento.

A variável que condiciona tudo: regulação, custo e tempo

O fim da negociação com a Warner também reacendeu um debate estrutural: mega-fusões no entretenimento prometem sinergias, mas frequentemente enfrentam problemas de integração, dívida e escrutínio regulatório.

A cobertura da Reuters destaca que o acordo entre Paramount e Warner Bros. Discovery ficará sob forte vigilância regulatória nos EUA. Nesse cenário, mesmo tendo capacidade financeira para competir, a Netflix optou por evitar o risco operacional e político de uma operação dessa dimensão.

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