A Omnicom transfere para a Endava centenas de colaboradores de engenharia e produto da sua plataforma Omni

A Omnicom iniciou uma profunda reorganização das equipas responsáveis pelo desenvolvimento da Omni, a sua plataforma de inteligência artificial e dados, considerada um dos pilares da sua oferta tecnológica para clientes. A empresa transferiu para a consultora tecnológica Endava pelo menos 468 colaboradores de engenharia e produto, distribuídos pelos Estados Unidos, Reino Unido, Índia e Malásia, ao mesmo tempo que avançou com novos despedimentos na divisão responsável pela plataforma.

A decisão afeta o núcleo técnico responsável pela construção da Omni, uma plataforma que a Omnicom relançou no início de 2026, durante o CES de Las Vegas, como eixo da sua estratégia de inteligência artificial para anunciantes e agências. Segundo documentação obtida pela ADWEEK, a transferência ocorreu de forma discreta entre junho e julho e representa uma das maiores operações de externalização realizadas pelo grupo desde a sua integração com o Interpublic Group (IPG).

Num comunicado enviado à ADWEEK, a Omnicom confirmou ter celebrado um acordo plurianual com a Endava, com o objetivo de aumentar a sua capacidade global de engenharia, incorporar competências técnicas especializadas e reforçar o suporte operacional para acelerar o desenvolvimento da Omni.

A empresa sublinha que a externalização não implica perder o controlo da plataforma. Segundo a Omnicom, o grupo continuará responsável pela estratégia de produto, inovação em inteligência artificial, ciência de dados, relações com os clientes e propriedade intelectual.

No entanto, o grupo recusou divulgar publicamente o número exato de colaboradores transferidos ou a dimensão atual da organização dedicada à Omni. A Endava também não respondeu aos pedidos de informação do meio norte-americano.

Além da transferência de colaboradores, a Omnicom despediu cerca de 50 trabalhadores da divisão norte-americana de Produto e Engenharia da Omni no passado dia 9 de junho. Fontes consultadas pela publicação garantem que também foram realizados cortes na Austrália, Reino Unido e Malásia.

Os trabalhadores afetados desempenhavam funções relacionadas com engenharia de software, ciência de dados, medição de media e soluções tecnológicas para clientes.

Várias fontes estimam que a organização global de produto e engenharia da Omni contava com cerca de 3.000 colaboradores antes da reorganização, distribuídos pelas diferentes agências do grupo. A Omnicom afirma que o número era inferior, mas não divulgou um valor oficial.

A reestruturação acontece poucos meses depois da fusão de 13,5 mil milhões de dólares entre a Omnicom e a IPG e na sequência de uma primeira vaga de ajustamentos que, segundo informação anteriormente divulgada pela ADWEEK, resultou na saída de mais de 10.000 colaboradores do grupo.

Vários trabalhadores afetados manifestaram dúvidas sobre a decisão de separar o desenvolvimento tecnológico de uma plataforma que a Omnicom apresenta como estratégica para o seu negócio. Um dos colaboradores transferidos questionou se faz sentido externalizar o trabalho de engenharia de um produto que constitui um dos principais argumentos comerciais da empresa junto dos seus clientes.

As fontes consultadas consideram que a reorganização reduziu o conhecimento interno sobre a plataforma e afastou do produto o talento técnico que até agora era responsável pelo seu desenvolvimento e manutenção.

Os testemunhos recolhidos pela ADWEEK descrevem uma transição complexa, marcada por várias dificuldades operacionais. Dois colaboradores transferidos afirmaram que, seis semanas depois de ingressarem na Endava, ainda não tinham conhecido o seu responsável direto e estavam já a procurar novas oportunidades profissionais. Um deles afirmou que vários colegas tinham abandonado a empresa após a transferência.

As mesmas fontes garantem que o processo provocou atrasos em entregas a clientes e gerou tensões entre as equipas responsáveis por diferentes projetos.

A reorganização foi comunicada a 9 de junho através de dois canais: alguns colaboradores receberam uma notificação informando que os seus postos de trabalho seriam eliminados, enquanto outros receberam um email da CEO da Omni, Christine Gambino, com uma proposta para transitarem para a Endava.

Segundo a documentação obtida pela publicação, o email não explicava explicitamente que a recusa da proposta implicaria a cessação do contrato sem indemnização, uma condição que constava, contudo, de um documento interno de perguntas frequentes.

A reorganização terá também gerado confusão entre equipas internas e clientes. Um colaborador explicou que alguns serviços de ciência de dados e medição de media deixaram de ser prestados pela Omnicom sem que determinadas equipas comerciais ou clientes fossem previamente informados.

Os trabalhadores transferidos relatam que, em várias ocasiões, tiveram de comunicar pessoalmente a outras equipas que já não faziam parte da Omnicom.

Durante o processo de integração, a Endava pediu inicialmente aos novos colaboradores que carregassem documentos de identificação e números da Segurança Social norte-americana para um formulário do Microsoft SharePoint que, segundo as fontes, não apresentava as medidas de segurança esperadas. Após reclamações relacionadas com a privacidade, a empresa alterou o procedimento e passou a encaminhar a documentação para o seu fornecedor de processamento salarial.

Também surgiram contradições relativamente à forma como seriam reconhecidos a antiguidade e o histórico de desempenho dos colaboradores. Enquanto um documento interno indicava que esses registos seriam transferidos, responsáveis de recursos humanos da Omnicom afirmaram posteriormente, durante uma sessão de integração, que apenas a antiguidade seria reconhecida e que a Endava trataria os colaboradores como novos trabalhadores, sem receber as suas avaliações anteriores.

A decisão insere-se num contexto de reorganização mais abrangente dentro da Omnicom após a integração com a IPG. O CEO do grupo, John Wren, afirmou em junho que a fase de grandes cortes de pessoal tinha terminado, embora tenha adiantado que a empresa continuaria a encerrar negócios considerados não estratégicos e a externalizar determinadas operações de TI.

A Omnicom defende que a transferência de parte da equipa da Omni para a Endava não faz parte desse plano de externalização, mas resulta de uma parceria específica destinada a aumentar a capacidade de desenvolvimento da plataforma.

Ainda assim, a operação abriu um debate interno sobre o modelo de desenvolvimento de um dos principais ativos tecnológicos do grupo e sobre o impacto que a externalização poderá ter na continuidade do produto e na relação com os clientes.

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