Uma extensão do Chrome usa IA para ler políticas de privacidade em nome do utilizador

As políticas de privacidade continuam a ser um dos grandes pontos cegos da internet: quase ninguém as lê, apesar de nelas se definirem questões críticas sobre utilização de dados, responsabilidade legal e, cada vez mais, treino de modelos de IA. É precisamente esse problema que a Termzy AI tenta resolver, uma extensão do Chrome que analisa contratos e políticas online e resume as suas cláusulas principais em linguagem simples.

A ferramenta foi criada por Giulio Pavesi em conjunto com três colegas enquanto estudava na Universidade de Amesterdão, no âmbito de uma disciplina sobre o impacto da IA na cultura, na política e nos valores democráticos. O que começou como um projeto académico transformou-se numa startup independente com plano de negócio próprio. Atualmente, a extensão é gratuita, embora Pavesi planeie lançar versões enterprise orientadas para empresas, equipas jurídicas e departamentos de procurement. Segundo o fundador, a Termzy utiliza o LLM da DeepSeek para analisar contratos e identificar as cinco cláusulas mais relevantes. Inclui ainda um chatbot que permite ao utilizador perguntar diretamente o que uma política diz sobre os seus dados ou direitos, sem necessidade de navegar por páginas de texto jurídico.

Pavesi argumenta que o problema não é apenas a complexidade dos textos, mas também uma combinação de falta de atenção e resignação. No caso de grandes plataformas como a Meta ou a Google, reconhece que, embora a informação esteja disponível e por vezes apresentada de forma relativamente acessível, muitos utilizadores sentem que não têm margem real de escolha. Onde acredita que uma ferramenta como a Termzy pode realmente alterar comportamentos é em serviços mais pequenos ou contextos empresariais, onde existe uma maior capacidade de mudar de fornecedor.

Este valor prático surge, por exemplo, em situações como serviços gratuitos que armazenam ficheiros carregados pelo utilizador ou que os utilizam para treino de modelos de IA. Pavesi refere que tem identificado cada vez mais cláusulas relacionadas com esse tipo de utilização de dados, além de outras mais tradicionais, como limitações de responsabilidade, caps de indemnização ou reutilização de conteúdos para marketing ou revisão interna.

A própria ferramenta, naturalmente, também levanta questões de privacidade. Pavesi explica que as políticas são enviadas para a DeepSeek para análise, mas garante que a Termzy não guarda o texto completo, nem o histórico de navegação, nem as ações do utilizador noutros sites ou aplicações. Segundo a empresa, apenas são recolhidos dados agregados de utilização, como a frequência de análises realizadas.

Para além desta ferramenta específica, o caso reflete uma necessidade crescente de soluções que tornem legíveis contratos e políticas num contexto em que as cláusulas relacionadas com dados, direitos e treino de IA têm um peso cada vez mais relevante na economia digital. A partir daqui, a questão mantém-se em aberto: as pessoas vão passar a ler mais estes documentos ou a disponibilização desta informação de forma mais clara acabará por influenciar a forma como escolhem serviços e fornecedores?

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