A capacidade de operar o retail media à escala definirá as empresas de referência

O Retail Media passou, em muito pouco tempo, de uma camada de monetização para o e-commerce a um dos principais motores de crescimento da publicidade digital. Em 2026, o debate já não gira tanto em torno da experimentação ou da promessa, mas sim da maturidade: infraestrutura, governance, processos e capacidade real de execução. A mudança de fase tem uma implicação direta: a liderança não dependerá de quem multiplica inventário ou formatos, mas de quem consegue operar a atividade publicitária como uma linha de negócio central, cumprindo as expectativas dos anunciantes à escala e integrando a publicidade sem fricções na experiência do cliente.

São cinco os vetores que estão a marcar esta transição

O primeiro é a transformação interna das Retail Media Networks (RMNs). À medida que os orçamentos crescem, deixam de ser vistas como receitas incrementais “acopladas” às equipas de e-commerce ou marketing. Muitas nasceram apoiadas em soluções de adtech tipo “caixa negra”, pensadas para retargeting e adaptadas ao retail media de forma limitada. Essa abordagem começa a revelar fragilidades: os anunciantes exigem fiabilidade operacional, accountability e performance comparável à de canais digitais consolidados. As RMNs que melhor evoluírem serão as que reorganizam responsabilidades e alinham merchandising, data e produto com objetivos claros de receita, entendendo que retail media não é apenas vender impressões, mas influenciar descoberta, conversão e valor do cliente ao longo de todo o purchase journey.

O segundo vetor é a estandardização, que passa de “desejável” a requisito mínimo. O ecossistema continua fragmentado: cada rede define resultados, atribuição e reporting de forma distinta. Essa diversidade, tolerável numa fase inicial, hoje gera fricções na planificação e no escalonamento multi-retailer. A expectativa desloca-se para indicadores comuns, modelos de atribuição mais claros e maior transparência sobre como o investimento impacta outcomes. A estandardização não implica uniformização total: a diferenciação continuará a vir da qualidade de audiência, do uso de first-party data e da execução criativa, mas sem um enquadramento mínimo partilhado o canal corre o risco de se tornar um conjunto de silos, em vez de uma alternativa credível às plataformas digitais estabelecidas.

O terceiro vetor é a ascensão do “native commerce media”: publicidade integrada nas experiências de compra e conteúdo, concebida para acrescentar valor em vez de interromper. Produtos patrocinados, conteúdo shoppable e recomendações contextuais alinham-se com a forma como o consumidor já navega e descobre produtos. Face a banners tradicionais ou modelos intensivos em tracking, estes formatos prometem monetizar ambientes próprios sem degradar confiança ou experiência. O critério de qualidade é claro: quando bem executado, é percebido menos como “anúncio” e mais como utilidade.

O quarto vetor coloca a criatividade como alavanca mensurável de crescimento. Com a maturidade do closed-loop measurement, a criatividade deixa de ser um “check” e passa a ser um driver quantificável de performance. Em ambientes de retalho digital, onde não existem os sinais da loja física, o ativo criativo funciona como montra: capta atenção, comunica valor e influencia decisões em segundos. Isto está a levar as RMNs a atuar mais como parceiros criativos, porque assets concebidos especificamente para o retailer, o placement e o mindset do comprador tendem a superar materiais genéricos reutilizados de outros canais. Em 2026, as marcas que mais crescerem serão as que tratam a criatividade como parte estrutural da sua estratégia de retail media, não como um complemento.

O quinto vetor é a procura por propriedade e controlo do stack. À medida que o retail media se torna crítico para a rentabilidade, aumenta a sensibilidade face a dependências de adtech “black box” que limitam flexibilidade e acesso a dados. Mais retalhistas irão priorizar governance sobre pricing, formatos, utilização de dados e roadmap, não necessariamente para romper com parceiros, mas para redefinir relações com maior transparência e capacidade de adaptação. Para o anunciante, esse controlo traduz-se em clareza sobre desempenho e uso de dados, e em confiança para tratar o retail media como investimento estrutural e não apenas tático.

O resultado é uma linha divisória clara ao longo de 2026: a execução irá separar líderes de seguidores. O retail media consolidar-se-á na interseção entre marketing, commerce e tecnologia, exigindo novas capacidades e estruturas. Para quem ambiciona liderar, a questão já não é se o retail media importa, mas como fazê-lo funcionar à escala, com infraestrutura robusta, standards claros e experiências verdadeiramente centradas no cliente.

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