O Le Monde estuda formas de gerir o acesso dos seus subscritores quando estes chegam através de agentes de inteligência artificial
O jornal francês Le Monde está a redefinir a sua estratégia face à inteligência artificial. Depois de bloquear praticamente todo o tráfego automatizado que acede ao seu website sem um acordo de licenciamento, o título trabalha agora num novo desafio: como reconhecer e conceder acesso aos subscritores que consultem os seus conteúdos através de agentes de IA, em vez de o fazerem a partir de um navegador ou da aplicação do jornal.
Foi o que explicou Paul Laleu, CTO do Le Monde, em declarações citadas pela Digiday durante o evento Xcelerate, organizado pela Fastly, em Londres. Segundo Laleu, o objetivo passa por desenvolver mecanismos que permitam identificar quando um agente de IA atua em nome de um utilizador já subscritor do jornal, possibilitando-lhe o acesso aos conteúdos incluídos na sua subscrição.
“Quero conseguir reconhecer esse utilizador e dizer: ‘é subscritor, posso dar-lhe acesso ao conteúdo porque já está a pagar por ele’”, afirmou Laleu, que considera que este cenário fará “parte do futuro da web”.
Rumo a um acesso autenticado para agentes de IA
O Le Monde acompanha de perto o desenvolvimento de normas técnicas que permitam aos agentes de inteligência artificial transmitir a identidade do utilizador e as respetivas permissões de acesso. Entre as tecnologias em análise encontram-se aplicações baseadas no Model Context Protocol (MCP) e extensões inspiradas em sistemas de autenticação como o OAuth, com o objetivo de permitir ao jornal aplicar as suas regras de acesso mesmo quando os pedidos não são efetuados diretamente através de um navegador.
Laleu acredita que este cenário irá além dos chatbots e estender-se-á aos assistentes integrados em dispositivos, como o Apple Intelligence ou o Google Gemini, que tendem a assumir um papel cada vez mais relevante como intermediários entre utilizadores e aplicações dos publishers.
O tráfego automatizado ganha relevância
A reflexão do Le Monde surge num contexto de crescimento acelerado do tráfego gerado por sistemas automatizados. De acordo com dados da Fastly, o tráfego impulsionado por inteligência artificial está a crescer a um ritmo 6,5 vezes superior ao tráfego humano. A empresa refere que o setor se aproxima de um ponto em que cerca de metade dos pedidos recebidos pelos servidores poderá ter origem em bots.
Por sua vez, um relatório da TollBit estima que, atualmente, é registada uma visita de um bot por cada 31 visitas humanas a um website.
Perante esta evolução, Simon Wistow, cofundador da Fastly, defende que o desafio já não passa apenas por bloquear bots maliciosos, mas por decidir que tipos de interações automatizadas devem ser permitidas e desenvolver a infraestrutura necessária para as gerir.
Política de bloqueio por defeito
Desde 2023, o Le Monde aplica uma política de bloqueio quase total do tráfego não humano. Apenas permite o acesso a empresas com as quais mantém acordos de licenciamento, entre as quais a OpenAI, a Meta e a Perplexity.
Laleu garantiu que o jornal continua em conversações com outras empresas do setor e mostrou-se confiante na celebração de novos acordos. Ainda assim, considera que a informação atualmente disponibilizada pelos parceiros de IA sobre a utilização dos seus conteúdos continua a ser insuficiente quando comparada com as métricas oferecidas por ferramentas como a Google Search Console para SEO.
O responsável justificou ainda esta estratégia pela dificuldade em conhecer o destino final dos conteúdos recolhidos por numerosos rastreadores web, incluindo bases de dados como Common Crawl, frequentemente utilizadas para treinar modelos de inteligência artificial.
Mais investimento em jornalistas do que em conteúdos gerados por IA
Enquanto adapta a sua infraestrutura tecnológica, o Le Monde mantém uma posição restritiva relativamente à utilização editorial da inteligência artificial. Segundo Laleu, o jornal proíbe a publicação de artigos escritos por IA e de imagens geradas por estas ferramentas.
A inteligência artificial é utilizada apenas como apoio ao trabalho dos jornalistas, integrada no CMS e através de uma parceria com a Perplexity, que permite responder a perguntas recorrendo exclusivamente à informação publicada pelo jornal.
Atualmente, o grupo conta com 665 mil subscritores digitais e registou receitas de 306,2 milhões de euros em 2025.
A abordagem do jornal francês resume-se a três princípios fundamentais: sem acordo, não há rastreamento; sem identificação do utilizador, não há acesso através de IA; e o próximo desafio será definir de que forma estas regras podem ser aplicadas quando o visitante é um agente que atua em nome de um subscritor.
A transformação do ecossistema dos publishers perante a ascensão da inteligência artificial foi também um dos temas centrais debatidos no evento PROGRAMMATIC MORNING Publishers Focus: IA, Inovação e Negócio, realizado a 16 de junho, em Madrid, onde foram analisados os novos desafios de monetização, a relação com as plataformas de IA e o papel dos meios de comunicação num ambiente cada vez mais marcado pelos agentes inteligentes.

