Os publishers já não se limitam a bloquear os agentes de IA: agora também adaptam os seus sites para eles

Os publishers estão a deixar de centrar a sua estratégia apenas em impedir o acesso dos bots de inteligência artificial e começam a adaptar os seus sites para facilitar a leitura por agentes de IA, num movimento que antecipa o surgimento de uma web cada vez mais orientada para este tipo de sistemas.

Meios como a Time, a The Economist e outro grande grupo editorial estão a testar versões paralelas das suas páginas, concebidas especificamente para agentes de IA. Em simultâneo, reforçam os mecanismos de controlo sobre os bots autorizados a rastrear os seus conteúdos e experimentam novos standards da web, segundo avança o Digiday.

No caso da Time, todas as páginas estão a ser convertidas de HTML para Markdown, um formato simplificado que elimina elementos de design, navegação e estilo, preservando apenas o conteúdo e os respetivos metadados. De acordo com Mark Howard, Chief Operating Officer da Time, o objetivo é separar a experiência destinada aos leitores humanos daquela que é disponibilizada aos sistemas de IA.

A publicação optou igualmente por bloquear, por defeito, todos os bots de IA, permitindo o acesso apenas aos que integram uma whitelist. Estes bots autorizados são automaticamente encaminhados para as versões em Markdown dos conteúdos. Howard defende que disponibilizar informação estruturada aos agentes de IA poderá aumentar a visibilidade da Time nos motores de pesquisa baseados em inteligência artificial, além de reforçar a proposta de valor da sua oferta de GEO, através da qual ajuda as marcas a otimizar a sua presença nas respostas geradas por IA.

Para converter os conteúdos de HTML para Markdown, a Time utiliza a plataforma TollBit. Segundo o seu CEO e cofundador, Toshit Panigrahi, este formato reduz em cerca de 90% o número de tokens que os modelos de IA precisam de processar, acelerando o acesso aos conteúdos e contribuindo potencialmente para reduzir alucinações, ao disponibilizar informação mais simples de interpretar.

Também a The Economist está a testar versões adaptadas para agentes de IA. Para já, a iniciativa limita-se a materiais de marketing e documentação comercial disponibilizados fora da sua paywall. O objetivo passa por avaliar o equilíbrio entre aumentar a exposição dos conteúdos e proteger o valor do seu modelo de subscrição.

Segundo o Digiday, outro grande publisher — cuja identidade não foi revelada — está igualmente a experimentar o Web Model Context Protocol (WebMCP), um standard desenvolvido em conjunto pela Google e pela Microsoft, que permite disponibilizar dados estruturados diretamente aos agentes de IA, sem necessidade de estes rastrearem ou navegarem pelas páginas web tradicionais. De acordo com um responsável dessa empresa, a utilização do WebMCP poderá aumentar a visibilidade e o número de citações nos motores de pesquisa baseados em IA, reduzindo simultaneamente os custos associados ao tráfego gerado por bots, graças a uma distribuição de conteúdos mais eficiente.

Para além da distribuição externa, este tipo de tecnologia poderá também facilitar o acesso das próprias ferramentas internas de inteligência artificial dos publishers aos seus conteúdos, tornando esse processo mais eficiente.

Ainda assim, esta estratégia continua a suscitar debate no setor. Scott Messer, consultor independente na área dos media, considera que adaptar os sites para agentes de IA não deve ser uma decisão automática. Na sua perspetiva, se as interações com estes sistemas não gerarem cliques, impressões publicitárias ou receitas diretas, o investimento poderá não oferecer retorno.

O consultor defende que cada publisher terá de avaliar se a visibilidade e as citações obtidas nas respostas geradas por inteligência artificial justificam o investimento necessário para desenvolver infraestruturas específicas para estes agentes. Na sua opinião, essa avaliação será diferente para um meio suportado por um modelo de subscrição do que para outro cuja principal fonte de receita seja a publicidade.

A adaptação do ecossistema editorial ao crescimento da inteligência artificial e dos agentes de IA foi também um dos temas em destaque durante o evento PROGRAMMATIC MORNING Publishers Focus: IA, inovação e negócio, realizado a 16 de junho, em Madrid. Ao longo da conferência foram debatidos, entre outros assuntos, os novos desafios da monetização, a relação entre os meios de comunicação e as plataformas de IA e o papel que os publishers desempenharão num ecossistema cada vez mais marcado pelos agentes inteligentes.

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